‘Vi que podia influenciar a carreira’ - Conversa com o CEO

Nelson Gomes, presidente da Comgás, defende a gestão horizontalizada e diz que a empresa busca pessoas com perfil de ousadia

Presidente da distribuidora de gás natural Comgás, Nelson Roseira Gomes Neto entrou no mercado de petróleo e lubrificantes atraído por um anúncio da Esso, que procurava trainees para seus quadros. Estudante de engenharia civil em Curitiba, ele se candidatou porque queria construir postos de gasolina.

Nunca ergueu um deles. Começou na área de atendimento ao cliente, depois passou pelo setor de crédito, finanças e por aí foi. “Sem construir nenhum posto, vi que a minha vida profissional seria muito mais pela administração e gestão do que propriamente por uma linha técnica”, conta. E assim foi.

Em sua careira pela Esso e Exxon teve diversas passagens internacionais em diferentes posições de liderança, como a de responsável pela venda de produtos lubrificantes para aviação da Exxon no mundo inteiro, sediado em Washington (EUA). Quando o negócio de lubrificantes da multinacional foi vendido para a nacional Cosan, ele ficou à frente do empreendimento no Brasil.

Em leilão realizado em 1999, o consórcio formado por British Gas (BG) e Shell obteve a concessão do Estado para explorar o serviço de distribuição de gás por 30 anos. Em 2012, a Cosan adquiriu da BG 60,1% do capital da Comgás, cuja área de concessão abrange 177 cidades das regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas, Baixada Santista e do Vale do Paraíba.

“Em 2014, fui exercer uma função que eu nunca tinha feito: a de relação com o investidor. Na época, eu me tornei presidente da holding Cosan S/A, e o papel operacional do presidente é de funding para seus negócios e relacionamento com seus investidores. Fiquei no posto ao longo de 2014 e 2015.” No final desse ano, foi apontado pelo Conselho de Administração da Cosan para assumir a presidência da Comgás. Assumiu o cargo em janeiro de 2016.

Negócio regulado
As características de um negócio regulado, como a distribuição de gás, são diferentes daquelas do mercado livre, da livre iniciativa, e influenciam a gestão e a maneira de gerir. No mercado de gás, há uma agência reguladora, em São Paulo é a Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsep). Baseada em um programa de investimentos e de todos os ativos investidos pela concessionária, ela determina qual é a margem (de ganho) que a empresa vai ter em cinco anos. Olha para a frente e idealiza quanto você vai investir, o volume de gás que vai vender, e dada uma faixa de retorno que também é arbitrada pela agência baseada em uma série de equações, você busca ampliar a margem da distribuidora.

Sem riscos
A distribuidora de gás não toma riscos nem de molécula nem de impostos. Porque esses dois componentes de nossos custos são passados automaticamente para o consumidor. A margem vai sofrendo uma redução ao longo do tempo baseada no fator eficiência, prevista no contrato de concessão. A concessionária tem de ter, pelo contrato de concessão, cada vez mais eficiência. Como ganhamos dinheiro? Temos de ser mais eficientes do que diz o contrato de concessão. Buscamos eficiência adicional.

Tensão
Não tenha a menor dúvida, é um quadro muito desafiador. Quanto mais eficiente somos, mais a agência reguladora nos cobra. O Brasil tem mais ou menos 3 milhões de clientes conectados e quase 1,8 milhão estão na área de concessão da Comgás. Temos 15 mil quilômetros de rede em nossa área de concessão. O Brasil todo, não tem 30 mil. Então, ainda que seja um processo muito desafiador como gestão, se bem administrado permite um crescimento bastante expressivo do negócio.

Acréscimo
Nós acrescentamos todos os anos algo em torno de 100 mil/120 mil clientes. É uma máquina de conexão. Digo que acordamos, construímos 4 km de rede, conectamos 500 clientes e vamos dormir. E estamos fazendo isso desde que a Cosan entrou na Comgás. São 157 municípios em nossa área de concessão.

O segredo
O grande segredo disso (da ampliação) são pessoas que querem fazer a diferença e transformar nosso negócio. Ele se transforma todos os dias por meio de pessoas que têm características comuns: são inquietos, interessados e impecáveis em tudo que fazem.

Horizontal
Não acredito naquela hierarquia de multinacional, que tem de falar com o chefe, que tem de falar com outro chefe, com diretor etc. Acredito na comunicação, na informalidade. Acredito no objetivo comum, em que todos sabemos onde queremos chegar. E sabendo, as pessoas sabem o que têm de fazer. Sabem com quem conversar. Cada vez mais estamos delegando para quem entende, para quem está no dia a dia, o cara que está fazendo o negócio acontecer, é ele quem tem de tomar a decisão.

Rotina
Eu não trabalho muito tempo dentro do escritório. Eu moro perto, há dois quilômetros daqui, onde venho pelo menos duas vezes por semana. Venho a pé e volto a pé.

Circulando
Gosto muito de gente, de conversar, de saber o que está acontecendo. Quando fico no escritório, fico circulando. Uma ou duas vezes por semana vou para o nosso centro operacional, no Brás. Lá trabalham 800 pessoas. Participo de reuniões, mas também costumo circular muito. Então, meu número de horas dentro do escritório não é grande, mas meu número de horas envolvidas com o negócio é grande, porque chego 7h30 ou 8h, dependendo de ter ou não academia, e saio todos os dias 19h30/20h.

‘Estalo’
Determinante para minha carreira foi quando descobri que poderia influenciá-la da maneira que eu quisesse, e não como as empresas queriam. A medida que descobri isso e encontrei a fórmula de como fazê-lo, acho que fui bem-sucedido.

O jovem ideal
Buscamos um tipo de jovem que tenha fit perfeito conosco: um perfil de ousadia em que o jovem não tenha medo de errar, queira empreender aqui com a gente. A ousadia é uma característica que temos buscado aqui. Os jovens estão cada vez mais em busca de desafios, estão cada vez menos em busca só de salários e benefícios. Claro que isso é importante, mas acho que o mais importante para esse pessoal é o desafio. Pular fora da zona de conforto. E também ter vontade de aprender todos os dias, de melhorar todos os dias, acordar todos os dias e pensar como eu posso fazer isso mais rápido, melhor ou mais barato.

Relações
Uma coisa que sempre procurei fazer e investir tempo ao longo da minha carreira é me relacionar. Tem de saber trocar, saber rir, saber falar, saber ensinar e construir alianças, uma forma constante de cooperação.

Publicado no jornal O Estado de São Paulo, no dia 26/11/2017